Carta de Fred Dantas

Aos dirigentes de bandas filarmônicas reunidos para criar uma Federação Estadual

por Fred Dantas. Salvador, Bahia, 2 de agosto de 2014.

O convite para me pronunciar neste dia 2 de agosto de 2014, na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, momento histórico quando se pretende reunir esforços em busca do reconhecimento do trabalho feito há dois séculos pelas bandas de música no estado da Bahia, me traz muita alegria, pois sempre foi esse o principal assunto da minha vida profissional. Mas traz também o amargo gosto de me fazer pronunciar com firmeza diante de uma situação limite: em relação às sociedades filarmônicas, a falta de reconhecimento, enquanto se implanta o modelo das orquestras sinfônicas como política oficial.

Ora, ainda em 2009, num documento que publiquei sob título de “Carta de Porto Seguro” alertava sobre os riscos que viriam ao confrontar a total ausência de política para a filarmônica, enquanto despontava um projeto hiper-financiado, elogiado a todo o momento, que iria confrontar as instituições com o dilema de aderir ou extinguir-se. Nesse período as bandas também reagiram buscando apoios locais, tornando-se pontos de cultura ou inscrevendo-se em editais, de forma tal que, reunidas, ainda são o maior projeto em nosso estado envolvendo crianças e adolescentes através da música.

Tenho procurado não pensar nesse assunto, tentando eu próprio concluir uma importante etapa da minha vida que é o doutorado, mas a situação atual vem ao meu encontro através da carta do mestre Celso Jesus, de Jacobina, que reflete opiniões de todos aqui reunidos:

Enquanto estamos, passando por dificuldades imensas, ou seja, de pires na mão, como diz o ditado, sem nenhuma ou quase nenhuma união, discutindo com dificuldade questões organizacionais, etc etc..a nossa querida Neojibá receberá 14 milhões do Governo Estadual. Não que sejamos contra a Neojibá, ou qualquer projeto, longe disto. Mas é porque estamos há anos lutando para conseguir manter vivas nossas entidades, isso aos trancos e barrancos, sem apoio significante, e nosso Governo investiu 30 mil em algumas filarmônicas em 8 anos, significando um investimento de pouco menos que 3 milhões, sendo que o recurso ainda foi do MinC e da Caixa Econômica Federal, ou seja, não investiu nada do governo propriamente dito (Celso Jesus, em 25/07/14).”

Diante do exposto, penso agora que as bandas, através de uma federação eleita, devem buscar um tratamento semelhante. Quem venha outros 14 milhões, distribuídos não somente a um projeto, que pretende se expandir por força de um decreto, mas somente falando da Bahia, a mais de duzentos projetos que já existem e têm mostrado serviço desde a Capital até a mais distante e pequenina comunidade. Reunidas as filarmônicas são o principal projeto envolvendo música no Brasil. Repetindo o mestre Celso, “não que sejamos contra a Neojibá” mas porque queremos reconhecimento, pois:

– se a questão é trazer o jovem ao convívio social através da música, isso tem sido plenamente realizado pelas bandas filarmônicas, repletas de rostos jovens.

– no tocante à profissionalização, é bom saber que a maioria absoluta dos músicos de bandas militares, orquestras sinfônicas e bandas de MPB vêm das bandas de música, onde se trabalha com todos os signos da música clássica européia. A maioria dos músicos de sopro integrantes nas orquestras do El Sistema no Brasil vem das bandas de música.

– Além das questões sociais e técnicas, na banda de música se conta com a noção de pertencimento, onde o jovem se orgulha de participar de uma instituição onde seus pais e avós tiveram convivência. Isso envolve a produção de músicas realmente relacionadas com a realidade local, não a simples repetição, em pirâmide, de um repertório centralizado.

– Ao ignorar as bandas de música, também se ignora o destino de milhares de manuscritos musicais, que são a nossa história musical, apodrecendo nos arquivos das centenárias filarmônicas, merecendo apoio especializado, pois lidar com documentos raros é uma tarefa complicada.

– Finalmente, em um país de fortes tradições culturais populares, onde projetos como o de Villa-Lobos leva em conta a diversidade musical e a criatividade da população, na Bahia em cuja Universidade podem se achar pedagogos premiados internacionalmente, sinto vergonha quando um edital envolvendo 14 milhões de reais saídos das verbas públicas pretenda qualificar um projeto “que tem como base a experiência do El Sistema da Venezuela”.

Cerca de 300 orquestras do El Sistema pretendem ser instaladas em todo o Brasil, com inspeção de maestros vindos da Venezuela. O modelo é centralizador e totalitário, cabendo às novas orquestras somente obedecer ao repertório já experimentado na matriz. Isso é totalmente estranho à imensa variedade da música no Brasil. A diversidade das bandas, suas disputas, as diretorias eleitas, as músicas criadas na própria cidade, tudo isso reflete as contradições e virtudes do regime democrático. Do direito cultural à variedade.

Já em algumas cidades, por conta dos recursos financeiros já encaminhados, quem participa do Neojibá ganha uma razoável bolsa, enquanto a filarmônica não pode competir, e perde seus meninos. Se não fosse a desigualdade de tratamento, se houvesse ao menos uma política cultural para as instituições que deveriam ser motivo de orgulho para qualquer governo razoável, nossa atitude seria ignorar a euforia em torno das orquestras juvenis e prosseguir nosso trabalho, mas o fato é muito mais sério: trata-se de uma política oficial de desmerecer o grande e histórico trabalho de educação através da arte desenvolvido pelas bandas filarmônicas, abandonadas à própria sorte, enquanto se expande uma realidade musical substituta.

Extingue-se a Mata Atlântica e substitui-se por matas de eucalipto, simples assim.

 

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